IRONIAS

A ironia de Machado de Assis nem sempre é percebida nos entremeios de suas linhas literárias. Assim muitos o consideram pouco comprometido com questões sociais, ainda mais no Brasil de tradição escravista. Recentemente estudiosos de sua obra  desmitificaram essa alusão à sua neutralidade, mas a polêmica continua.

Não sou especialista em nenhum escritor e não saberia o que afirmar, mas ao  ler Isaú e Jacob,IMG_1406penúltimo romance de Machado  que se passa no momento da Proclamação da República, fico indecisa tal qual a personagem Flora. (1)

Trata-se de uma moça disputada pelos dois irmãos gêmeos que dão título ao livro,  Pedro e Paulo, antagonistas desde o útero  segundo uma vidente consultada que narrar a primeira briga antes mesmo de nascerem. Pois no contexto do fim do século XIX, Paulo, diferente do irmão monarquista, se aproximou da causa republicana. E aí entra Flora, que não se decide entre esses dois amores. Espírito dúbio e hesitante, definido pelo narrador, em diversas passagens, como “inexplicável”. Será Flora a voz de Machado indeciso entre a monarquia e o novo regime?

À maneira de não se comprometer diretamente, me diverti com um trecho de Esaú e Jacob, sobre um comerciante português atrapalhado ao repintar a placa de seu negócio nos dias em que se passava a proclamação da República.  Com o título Armazém do Império, queria mudá-lo para Armazém  da República, o que também  poderia lhe causar problemas com os contra o novo regime. Deste modo  aconselha-se com um ex-ministro aposentado, seu vizinho, que propõe que continue com  Império, acrescentando, ao lado, 1860,  ano do início do seu estabelecimento. Tanto a antiguidade, que naquele tempo não era atributo, quanto as letras menores da data para caber na placa, o fizeram recusar a sugestão. Então porque não Armazém do Custódio, seu nome? Sugere ainda o ex-ministro, a que o outro reagiu de bom grado.

Essa saída para não se comprometer, não se mostrar frente aos fatos e também o tom jocoso de Machado,  me levou aos dias da ditadura civil militar e o embaraço que pegou meu pai de surpresa.

Porquanto comerciante experiente, meu pai tinha um pequeno açougue. Em um dos períodos mais terríveis da ditadura, tempos de Garrastazu Medici, fotografias do ditador foram distribuídas nas escolas, no comercio e em outros estabelecimentos para serem expostas em lugar visível. Essa é entre outras, uma das estratégias dos governos de exceção, a de perpetuarem  a autoridade maior, a ser respeitada e temida com represálias.

Com meu pai não foi diferente. Ao negar-se a colocar o tal retrato na parede do açougue, viu-se um dia ameaçado por alguns civis ligados à Polícia Federal, como descobrimos depois, que  o interpelaram sobre  a ausência da imagem do ditador.  Sob a advertência de  ser levado à delegacia política da Rua Tutóia, a tão temida Operação Oban, fato corriqueiro na época, quando decisões arbitrárias se sobrepunham aos direitos civis,  meu pai saiu-se com essa:  por ser um retrato tão imponente, de um presidente ainda mais, fardado, ficou sem jeito de pendurá-lo em um açougue, que por mais que fosse dedetizado, lidava com material perecível e passível de alguma mosca ou outro inseto emporcalhar a imagem.

Deve ter sido convincente inclusive ao dizer que o retrato encontrava-se na sua casa e que lá  estaria protegido. Bem no outro dia meu pai o pendurou no açougue, mas em uma parede lateral, sentindo-se assim mais seguro frente aos caprichos de autoridades naquele momento tão sombrio.

Ora, qual é a relação entre a relutância de Machado na personagem de Flora e a mentira do meu pai frente à ameaça que sofreu? Não são situações semelhantes, mas de toda forma expressam que comprometer-se com uma ideia e expô-la, a depender do contexto,  nem sempre é tarefa fácil.  Meu pai poderia ser preso e Machado?

Atrevo-me a dizer que talvez o escritor nos mostre questões mais profundas do qIMG_1410ue a mudança de regime do período do seu romance, quando na fala de outra personagem de Isaú e Jacob lê-se: “muda-se o regime, mas não os homens”. Portanto deixo o tema  para os que se debruçam sobre sua vida e obra.

 Notas:

(1) A minha leitura de Isaú e Jacó (edição da ed. Jackson, 1950) foi provocada pelo romance Machado, de Silviano Santiago, Cia das Letras, 2017, sobre os três últimos anos da vida do escritor.

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